Pesquisa mostra os efeitos do novo coronavírus sobre a população, o mercado de trabalho e o acesso à saúde e reafirma desigualdades raciais e socioeconômicas bem conhecidas entre os pretos e pobres do país

A trabalhadora doméstica, Cida Aparecida, mãe de duas meninas, moradora da zona sul de São Paulo, não conseguiu mais serviço e está sobrevivendo apenas da renda do Bolsa Família desde março, quando foi decretado o isolamento social como principal forma de combate à pandemia do novo coronavírus. Ela nem imagina quando poderá voltar a trabalhar, quando terá sua renda de volta, muito menos o que fará se for contaminada, porque o acesso à saúde sempre foi um problema para ela e sua família.

Negra, pobre e com baixo nível de escolaridade, Cida está no grupo de brasileiros e brasileiras mais afetado pela Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, como apontou a pesquisa da Pnad Covid-19, edição extraordinária da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), criada para medir os efeitos do novo coronavírus sobre a população na saúde e no mercado de trabalho. O objetivo do estudo é de servir de base para a elaboração de políticas públicas que minimizem os impactos da crise sanitária que agravou a crise econômica do país.

Para a secretária de Combate ao Racismo, Anatalina Lourenço, a população negra, em geral, tem menores chances em todos os aspectos da vida e não seria diferente nesse momento da pandemia porque é um reflexo do racismo estrutural.  

“Desde a infância os negros estão nos serviços menos remunerados, são os primeiros a ficarem desempregados, têm proteção menor do sistema de saúde e capacidade limitada de ascensão social. A Covid-19 está jogando luz neste abismo social, o que fez com que o momento do isolamento fosse marcado por protestos, nas ruas e nas redes, contra a violência do Estado e a desigualdade racial histórica que atinge os negros”, afirmou.

Os pretos e pardos somam 20% dos 19 milhões de brasileiros que foram afastados do trabalho em maio e os brancos 16,1%, segundo o IBGE. Entre eles, 9,7 milhões ficaram sem remuneração.

Somente 9% dos pardos e pretos puderam trabalhar em home office, enquanto 17,6% dos brasileiros de cor branca puderam aderir a essa iniciativa. A Covid-19 fez ainda com que 28,9% da população preta ou parda deixassem de procurar trabalho, os brancos somaram 18,7% nesse quesito.

A pesquisa também apontou que o afastamento se deu em maior intensidade entre os informais e em setores de serviços, incluindo os serviços domésticos sem carteira assinada, categoria em que 33,6% das trabalhadoras não puderam ir ao trabalho em maio.

“Eu não consegui mais ir ao trabalho porque preciso pegar ônibus e não tenho com quem deixar minhas meninas. Minha patroa me dispensou e disse que não podia continuar pagando minhas diárias. Tenho várias colegas nesta situação, parece que nós, mulheres negras, somos as mais afetadas com a piora da desigualdade que foi imposta por esta doença”, lamentou Cida.

Anatalina corrobora o que a Cida disse e destaca que os negros e as negras também são a maior parte dos brasileiros que trabalham nos comércios de rua, como vendedores ambulantes e no trabalho doméstico e que tiveram que ir para as suas casas com as medidas de confinamento ou continuar nas ruas sem nenhuma proteção. E não é de qualquer proteção que ela se refere.

“Proteção é o mesmo que tutelar, nós queremos garantia de direitos, ter os nossos direitos reconhecidos e queremos que, finalmente, 56% da população sejam reconhecidos como cidadãos. Enquanto só algumas pessoas tiverem acesso a direitos mínimos como a garantia à vida, seja ela através da saúde, moradia, educação, segurança pública e manutenção da vida, isso tudo será um privilégio e só será um direito quando todas as pessoas tiverem acesso. E é isso o que a população negra quer”.

Desemprego

A pesquisa fortalece os dados históricos e mostra que o número de pessoas sem trabalho é maior entre pretos e pardos do que entre brancos no país. Em maio, sob o efeito da pandemia, não foi diferente: segundo o IBGE, a taxa de desemprego de pretos e pardos foi de 12%, contra 9% verificados entre os brancos.

Escolaridade e afastamento

O estudo também mostrou que a taxa de afastamentos por nível de instrução foi maior entre os menos escolarizados. Entre os brasileiros com curso superior completo, 15% disseram ter sido afastados do trabalho em maio. Nos outros níveis, a taxa se situa entre 19% e 20%.

“Apesar do aumento das matrículas de pretos e pardos no ensino superior somar 50,3%, manter-se estudando ainda é um desafio devido às dificuldades enfrentadas pelas condições socioeconômicas, o que reflete no mercado de trabalho”, finaliza a dirigente.

Impactos socioeconômicos na doença em si

Além de sentir os efeitos trabalhistas e econômicos mais duros na pandemia, os negros e as negras também são os que mais sofrem com os sintomas da covid-19.

Segundo o IBGE, entre os 4,2 milhões de brasileiros que apresentaram sintomas da doença em maio, 70% eram de cor preta ou parda.

Segundo a secretária-Adjunta de Combate ao Racismo, Rosana Sousa Fernandes, os dados clínico-epidemiológicos mostram que negros são quatro vezes mais vulneráveis e isso não se deve a fatores genéticos e sim a  desigualdade socioeconômica e de acesso ao sistema de saúde.

E a pesquisa confirma isso. A doença afetou em maior quantidade os brasileiros com menor grau de instrução. Apenas 12,5% das pessoas que relataram sentir os sintomas têm ensino superior completo ou pós-graduação. Já quase 50% não têm instrução, têm o ensino fundamental incompleto ou o médio incompleto.

“A população sob maior risco é pobre, de baixa escolaridade, alta incidência de doenças crônicas que vão levar a sintomas mais graves da Covid-19. Essas pessoas são, na sua maior parte, negros e a pandemia está só reafirmando desigualdades raciais e socioeconômicas que antes já eram conhecidas”, afirma Rosana.

A dirigente lembra que entidades do movimento negro vêm reivindicando a inclusão do quesito cor em formulários de saúde, ao menos desde os anos 1990, com a intenção de produzir melhores informações sobre comorbidades que acometem essa população e pensar soluções e propostas de políticas públicas que venham a melhorar a condição de vida geral da população.

“E agora durante a pandemia houve uma mobilização muito maior, mas não está sendo cumprida”, ressalta.

Pobreza, acesso ao auxílio emergencial e solidariedade

Sete em cada 10 famílias da favela pediram o auxílio emergencial de R$ 600, aprovado pelo Congresso Nacional em março, mas 41% ainda não conseguiram receber, apontou a pesquisa inédita “Pandemia na Favela - A realidade de 14 milhões de favelados no combate ao novo Coronavírus”, realizada pelo Data Favela, uma parceria do Instituto Locomotiva, da Central Única das Favelas (CUFA) e da Favela Holding.

O Estudo também mostra que quem conseguiu receber o auxílio emergencial, utilizou o dinheiro para compra de alimentos (96%), produtos de higiene e limpeza (88%), compra de produtos de limpeza (87%), pagamento de contas básicas (68%), compra de remédios (64%) e ajuda a familiares e amigos (62%).

Mesmo com todas as dificuldades, proporcionalmente, os moradores de favelas realizaram mais doações para o combate à crise do Covid-19. 63% dos favelados fizeram algum tipo de doação, enquanto 49% dos brasileiros tiveram a mesma atitude durante a pandemia.

Escrito por: Érica Aragão